07 agosto 2010

Relato de um passageiro

Ontem, sexta-feira, estava dentro de um ônibus da linha 9202, indo em direção ao centro, quando um passageiro me chama à atenção. O coletivo estava cheio, lotado, portanto, não pude ver logo de cara quem era essa pessoa, mas pude ouvir um ruído agonizante, alto, que saía de sua boca. Pessoas levantavam pra ver do que se tratava tanto sofrimento e, só depois de alguns minutos, os passageiros do fundo, local onde eu estava, puderam descobrir. Tratava- se de um doente mental, cuja deficiência o impedia de falar e andar corretamente. Tá, mas e daí? Do trajeto da roleta até a porta traseira, minha atenção se desvia do passageiro em si, para a reação dos demais.


-“O cara ta falando árabe”, fala um sujeito para a pessoa ao lado.


O que estava ao meu lado ri e diz:


-“Hahaha, o cara ali falou que ele ta falando árabe, é o Saddam Hussein.”


A passageira ao lado dele demonstra um sorriso discreto e balança a cabeça, meio que confirmando o que ele disse. Quando “Saddam Hussein” se aproxima, vejo que ele pede dinheiro aos passageiros. Estende a mão para uma mulher, que o ignora, mantendo o olhar fixo na rua. Passa a mão diante dos rostos de todos os passageiros do banco de trás, inclusive o meu e, o mesmo cara que o apelidou de “Saddam”, tira algumas moedas do bolso e diz:


-“Toma aqui Saddam”, e despeja as moedas em sua mão.


Logo depois, o ônibus para no ponto, “Saddam” desce, e o “silêncio” toma conta do transporte. Não se escuta mais os ruídos, e nenhuma piada sobre eles. O que mais me espantou, foi a reação dos passageiros mesmo notando a visível deficiência do rapaz. Sim, brasileiro ri mesmo da desgraça alheia.

6 comentários:

Massai disse...

porra vei que tenso hein!

o povo rí e acha que nunca vai acontecer com eles.
tsc tsc...

Felipe Pedrosa disse...

Salve, salve companheiro de luta. Os trajetos são muitos, as percepções são poucas. Continue olhando o mundo ao seu redor. Não como uma foto num porta retrato, mas como crítico ácido do cotidiano.

Chronus disse...

Quem é diferente sempre sofre.

Anônimo disse...

eu achei engraçado o texto!

Ana Luiza Gonçalves. disse...

De tão triste, a história quase se tornou algo poético.
Mas a realidade bate de frente e onde há realidade não há poesia, não é?
Enfim..o importante é como você enxerga o mundo, o que você absorve dele, o que você devolve. Agora, os outros são os outros e só!
Beijo, João!

Gabrih disse...

Já ia dizer..e tu escrever...o povo adora rir da desgraça alheia. Fato!